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Cannabis

O uso de derivados de cannabis, apesar de ser um tema controverso, tem demonstrado, cada vez mais, ser uma alternativa com enorme potencial terapêutico. Apesar de a Marijuana ter uma conotação negativa devido aos seus efeitos psicoativos, é importante clarificar e diferenciar os compostos químicos desta planta.

O termo Cannabis refere-se a três espécies de cânhamo: Cannabis sativa, Cannabis indica e Cannabis ruderalis. A Marijuana é um termo que se refere à secagem das folhas, flores e sementes do cânhamo que são posteriormente usados para fumar, com fins recreativos ou terapêuticos. A Marijuana contém vários tipos de compostos químicos chamados de canabinóides, que vão interagir no nosso organismo com recetores canabinóides (CB). Os 60 tipos de canabinóides atualmente identificados diferem no seu efeito e ação psicoativa. Enquanto que o THC (delta-9-tetrahydrocannabinol) é o canabinóide mais conhecido na Marijuana pelo seu efeito psicoativo, outros canabinóides, como o CBD (canabidiol), não se incluem neste tipo de ação. Ao CBD é atribuída a ação terapêutica do cannabis. O CBD tem mostrado resultados muito interessantes e promissores na área da dor, tratamento de doenças degenerativas (Cancro, Alzheimer), doenças mentais como a Depressão, na Epilepsia, Asma, Diabetes, entre outros.

Farmacologia

O sistema endocanabinóide é o responsável pelo efeito tanto psicoativo como terapêutico da Cannabis. Este é um sistema neuromodulatório lipídico e, juntamente com os seus recetores, está envolvido em vários processos fisiológicos como o controlo do apetite, controlo da dor, humor e memória. É constituído por dois recetores canabinóide - tipo 1 (CB1) e tipo 2 (CB2) -, ligandos endógenos (endocanabinóides) e um sistema enzimático que sintetiza e degrada os endocanabinóides. (1)

Receptores Canabinóides

- Recetores canabinóides CB1: recetores acoplados à proteína G (um dos mais abundantes do cérebro). Estes recetores são expressos sobretudo no cérebro, nas pré-sinapses do sistema nervoso central e periférico. Parecem ser responsáveis pela sensação de bem-estar, memória, concentração, perceção sensorial e temporal e coordenação de movimentos.
- Recetores canabinóides CB2: expressos sobretudo nas células imunitárias e nos tecidos periféricos. Parecem desempenhar uma ação anti-inflamatória e imunossupressora. Parecem ainda direcionar a libertação de vários neurotransmissores e citoquinas.

Endocanabinóides

No sistema imunológico e nervoso dos seres vivos, foram identificados endocanabinóides, ou seja, canabinóides endógenos: anandamida (N-araquidonoitenolamina) e o 2-araquidonoiglicerol. Ambos derivados do ácido araquidónico e parecem ter ação anti-inflamatória e ações inibitórias nas convulsões epiléticas. Ligam-se e ativam os recetores CB1 e CB2. Serão assim considerados uma mecânica de defesa natural do organismo, tendo uma ação moduladora no organismo e são produzidos “on demand” pelo organismo. (2)

THC e CBD – Mecanismo de ação

O THC e o CBD são considerados canabinóides exógenos e vão atuar, tal como os endógenos, no sistema endocanabinóide mas de forma distinta. O THC, ao ser agonista dos recetores CB1 e CB2, parece ter o seu efeito psicoativo através da modulação do ácido gama-amino butírico (GABA) e glutamina. Por seu lado, o CBD não parece ligar-se a estes recetores. Dada a sua complexidade, a forma de atuação não está ainda completamente explicada. Várias hipóteses foram já identificadas para explicar a mecânica de atuação do CBD. O efeito neuroprotector e anti-inflamatório do CBD parece estar relacionada com:

- Inibição das ciclooxigenases e lipooxigenases (substâncias pró-inflamatórias) e por ser um agonista inverso nos receptores CB1 e CB2.
- Atuação sobre os endocanabinóides, inibindo a recaptação celular da anandamida. O CBD compete com a anandamida na ligação a proteínas ligadores de ácidos gordos (FABP), proteínas transportadoras da anandamida para a sua metabolização. (3)
A ação antiepilética do CBD parece estar relacionada com a modulação do sistema endocanabinóide, ao suspender a degradação da anandamida. Regula também os canais de cálcio tipo T, o que parece inibir as convulsões.

A ação anti-inflamatória e imunossupressora do CBD parece estar relacionada com a sua atuação nos recetores da serotonina e adenosina, ou seja, o CBD parece ser um agonista dos recetores 5-HT1A e 5-HT2A e um ativador do recetor da Adenosina A1A. (3).
O CBD parece ainda ter uma ação reguladora da epigenética, pois foram identificadas ações repressoras da transcrição, que controla a proliferação celular e diferenciação através da Metilação do DNA. (3)

Tanto o CBD como o THC são substâncias altamente lipofílicas com um tempo de semivida longa – CBD de nove a 32 horas. O CBD liga-se a proteínas e é metabolizado a nível hepático pelo CYP450, ainda que também iniba algumas das suas enzimas, podendo por isso interferir com alguns fármacos. 

Benefícios do CBD

O canabidiol tem sido estudado desde há vários anos (existem experiências desde 1975 com resultados registados) e continua a ser uma da substância que merece a atenção da Ciência. Os estudos têm demonstrado resultados promissores do CBD:

  • ação anti-diabética
  • ação anti-depressiva
  • ação neuroprotectora
  • ação anti-psicotica (Esquizofrenia)
  • ação anti-epilética
  • na proteção cardiovascular
  • ação anti-inflamatória
  • ação na dor neuropática
  • ação anti-emética (náuseas e vómitos) na quimioterapia
  • ação anti-tumoral
  • ação ansiolítica 

Dra. Lydia Freire
Nutricionista
Consultora Macrobiótica

(1) - Rodriguez de Fonseca e cols. (2005) “The endocannabinoid system: physiology and pharmacology” Alcohol Alcohol. ;40(1):2-¬14
(2) - Pucci et al., Epigenetic control of skin differentiation genes by phytocannabinoids. Br. J. Pharmacol. 170, 581–591.2013
(3) - Pucci et al., Epigenetic control of skin differentiation genes by phytocannabinoids. Br. J. Pharmacol. 170, 581–591.2013


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